segunda-feira, 22 de março de 2010

Oração, jejum e caridade


O tempo da quaresma é um período de renovação da nossa vivência cristã. A Igreja como Mestra da Verdade nos ensina de modo surpreendente, por intermédio de sua liturgia, como celebrar a Páscoa do Senhor e a nossa. Já na quarta-feira de cinzas nos é dada uma nova forma de vivermos nossa espiritualidade de modo mais intenso. Somos convidados a prática mais autêntica da caridade, da oração e do jejum.
O evangelista Mateus nos propõe o segredo como método mais eficaz de nossa experiência com Deus. O tríplice exercício espiritual: caridade, oração e jejum; devem ser praticados no sigilo. Não se trata aqui de algo que deve ser escondido do mundo, mas realizado de tal forma que proporcione uma intimidade com Deus. É diante d’Ele que devemos realizar essas ações. No entanto Ele não é o beneficiado, porque não necessita de nada, pelo contrário é Ele quem nos enriquece. Somos nós que crescemos espiritualmente e como pessoas humanas. Pois quando jejuamos percebemos a fragilidade humana e o quanto sofrem aqueles que nada têm para comer. Algo semelhante acontece quando ofertamos aos nossos irmãos algum bem nosso, notamos o quanto, na maioria das vezes, somos egoístas e que partilhar não tira a vida, mas satisfaz. E na oração Deus nos encoraja para realizarmos o bem, também por meio dela encontramos o verdadeiro sentido de tudo isso. Por que percebemos que só Deus é perfeito e que nós, em contra partida, precisamos d’Ele e uns dos outros.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Solenidade de São josé, esposo de Maria

O texto que se segui dedico ao Protetor da Santa Igreja São José

A necessidade de ouvir

No mundo contemporâneo vivemos numa cultura barulhenta, até se fala de uma poluição sonora, que tem preocupado os médicos. Em contra partida já não somos mais capazes de parar para ouvir as pessoas que estão ao nosso redor. A televisão, o aparelho de som parece seduzir mais, que as relações intersubjetivas. Mais do que nunca precisamos escutar, ouvir verdadeiramente. Não se trata aqui de captar ruídos sonoros, mas realizar uma reflexão interior na qual poderemos encontrar a mais autêntica razão do nosso ser. O ouvir não é apenas uma passividade infrutífera, mas trata-se de uma interação intersubjetiva, o diálogo entre duas pessoas. E a sua finalidade está numa evolução do próprio ser. À medida que nos deparamos com ser do outro, que se desvela por intermédio de sua fala, nos auto-firmamos enquanto sujeitos.
Da Palavra de Deus vemos haurir seu apelo: “Ouve, ó Israel: o Senhor nosso Deus é o único Senhor!”. É da vontade do próprio Deus que nós o escutemos. Mas como realizar uma tão grande coisa, como escutar o Senhor? Ele mesmo nos mostra como é possível realizar tamanha proeza, quando nos precede no ouvir, (Ex 3, 7-9). Aí começa a realizar sua kenosis, ou seja, Deus se enche de compaixão de seu Povo, sente seu sofrimento e mais ainda, assumi como sendo seu. Mas do que nunca podemos afirmar: Deus entende o seu Povo. A encarnação do Verbo Divino, a Paixão, Morte e Ressurreição Jesus Cristo se constitui a expressão máxima dessa escuta (Fl 2, 6-11).
Mas como todo diálogo exige interação, agora é nossa vez de escutar, de ouvir. Assim com Deus assumiu nosso ser, com exceção do pecado, nós precisamos realizar nossa enosis, ou seja, nos deixar divinizar. Pois é Ele quem realiza em nos essa obra, na medida em que nos abandonamos em suas mãos, deixando para traz toda auto-suficiência. É preciso ouvir, deixa-se tocar pelo ser de Deus, só assim assumiremos essa natureza divina comunicada por Ele. Fica claro que ouvir é muito mais que silencia exteriormente, mas colocar-se a disposição, por fim aceitar a transformação do próprio ser. O modo de ouvir Deus assumido pelo Homem Novo é semelhante ao que chamamos de obediência, obedecer (“ob-audire”) que significa, de forma simples, submetesse livremente à palavra ouvida (CIC 144). Em outras palavras trata-se de fazer-se servo, pois só assim seremos considerados filhos (Lc 15, 19).
Maria é o arquétipo perfeito de quem ouve, de quem é obediente, por isso a chamamos a Nova Eva. Pois não se elevou, mas se fez serva (Lc 1, 38. 47) e só assim foi elevada, como acreditamos. Ainda hoje ela nos convida: “Fazei tudo o que ele vos disser” (Jo 2, 5). Eis nosso desafio diante de nossos olhos, mas não se trata de algo que colocamos em prática do dia pra noite e sim de um exercício que devemos praticar ao longo de nossa vida, o mais importante é não desistir.



sexta-feira, 12 de março de 2010

Ainda somos Discípulos do Caminho?


Dos nomes com os quais os seguidores de Jesus foram denominados, podemos recordar um que nunca perdeu a sua atualidade e que está, por assim dizer, na sua natureza. Trata-se do nome de Discípulos do Caminho.
O próprio Senhor se identificou como sendo o Caminho, basta olharmos para o contexto da despedida após a Última Ceia, retratada por João (cf. Jo 14, 1s). Cristo se colocou como o elo estreito, definitivo e insubstituível entre nós e o Pai. Pois, assim foi da vontade do Pai que o Verbo Divino assumindo a nossa natureza, fosse para nós Caminho Divino que nos conduz a Ele. Mas, esse caminho não é longo, nem muito menos intransponível, porque o Senhor vem ao nosso encontro. Em Jesus, no Caminho, nos encontramos com o Pai. A parábola do pai misericordioso (ou filho pródigo) é um belo exemplo do que Deus é capaz de fazer por nós, mesmo quando o abandonamos e desconsideramos a sua existência: “Partiu, então, e foi ao encontro de seu pai. Ele estava ainda ao longe, quando seu pai viu-o, encheu-se de compaixão, correu e lançou-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos” (Lc. 15, 20). De fato, quando estávamos perdidos, na nossa existência, Deus não exitou assumir nossa humanidade, fazendo-se um de nós exceto no pecado. Por isso é que podemos dizer sempre que o primeiro passo é dele, em vista da nossa comunhão com Ele. Evidentemente que isso não nos torna isentos de participação para que ocorra esse encontro. Precisamos tomar a decisão de retornar, assim como fez o filho pródigo, examinar a consciência e realizar uma conversão que se demonstra em uma nova postura de vida.
Os discípulos do Senhor eram chamados de Discípulos do Caminho por que foram encontrados por Jesus. Agora depois da Revelação Plena em Jesus Cristo, peregrinamos na fé, caminhamos como o “Novo Povo de Deus” rumo à vida plena em Deus. Não obstante as alegrias e as esperanças, as dores e as angustias que experimentamos nesse mundo, somos chamados a testemunhar o imensurável amor de Deus, afim de que todos participem das alegrias do Pai. É por essa razão que também nós podemos nos denominar hoje como Discípulos do Caminho. Por que somos seus seguidores, somos seus discípulos, fizemos uma experiência com Ele, por isso estamos no Caminho.

sábado, 6 de março de 2010

A CRUZ: do sofrimento a esperança da Ressurreição

Nós como IGREJA nos alimentamos espiritualmente de muitos dons que o Senhor nos oferece para nossa santificação, entre eles podemos enfatizar nesse tempo a contemplação do misterium magno da Cruz. Nela estão duas presenças: a de Deus e a da humanidade. A primeira percebemos quando contemplamos o Amor sem reservas de Jesus Cristo que dá a sua vida em resgate da nossa, destruída pelo pecado. A segunda sentimos quando refletimos: "Ele assumiu nossas dores, nossos pecados, nossa fragilidade humana e por isso sentiu na sua carne nossos sofrimentos." Duas "presenças" que constitui uma só coisa, o Mistério da nossa Salvação.

No Cristo crucificado vemos o sofrimento de tantos irmãos e irmãs vítimas das injustiças deste mundo. Lá na cruz Cristo experimentou “A ausência de Deus", quantos de nós já não sentimos algo parecido, mas nem por isso podemos deixa de a exemplo de Cristo nos entregar nas mãos do Pai. Dessa experiência nasce o deseja de buscar cada vez mais a vida plena para todos.

Um cristão autêntico não fica estático diante do sofrimento, não se desespera, mas transcende. Na contemplação da cruz, além do sofrimento e da morte enxerga a esperança do Senhor que veio e vem com sol verdadeiro para iluminar nossa história. Por isso vê na cruz também a glória da Ressurreição de Cristo e consequentemente a nossa.